PROGRAMA DE ÍNDIO

É uma expressão brasileira mais complexa do que parece e o significado varia de região para região. Tem dois significados (e o meu próprio):

1- Fazer um programa simples, sem grandes luxos, minimalista… não é obrigatório, mas é geralmente associado a programas na natureza/ar livre.
Exemplos: Ficar a tarde toda a baloiçar na rede lendo um livro, ir apanhar um sol ao parque da cidade, fazer um pic-nic, fazer uma caminhada por uma trilha, ir tomar um banho de cachoeira…

2- Quando havia expectativas de um programa ser um grande evento/momento mas na realidade as coisas correram mal ou programa desagradável, desconfortável.

A expressão “Programa de índio” tem, em ambos os significados, uma carga de discriminação cultural contra os povos indígenas. No primeiro significado, tem por base a ideia que os povos indígenas são menos interessantes, menos desenvolvidos, menos sofisticados ou seja “fazer um programa de índio” é fazer algo que não é atraente, é muito simples, muito modesto. Pessoalmente isso para mim é excelente, baita legal, amo programas assim cheios de leveza mas… Conhecendo e vivendo no Brasil, sei que uma das palavras de ordem por aqui (podia até estar na bandeira, porque representa mais o Brasil do que ‘Ordem e Progresso’) é ‘ostentação’ quem muito tem muito ostenta, quem pouco tem faz o que for preciso para ostentar alguma coisa (almas são vendidas ao diabo por iphones… usados) e portanto tudo o que não for associado a luxo no Brasil não é bem visto, não é aceitável, não é da hora. De forma genérica o less is more (menos é mais) por aqui é enterro de anão. Portanto, para um brasileiro esta expressão é uma forma de inferiorizar e discriminar um povo (já tinham pensado nisso?!). No segundo significado é óbvia a discriminação cultural, porque coloca as atividades e a cultura indígena num patamar de conotação negativa, tentando associar a palavra ‘índio’ (e toda a sua cultura e seus povos) a situações desconfortáveis, desagradáveis… ou seja um programa de índio é algo a evitar.

Apesar de, como disse acima, mesmo no primeiro significado existir discriminação eu sinto-me totalmente tentada a adquirir esta expressão brasileira ao meu vocabulário. Isto porque eu acredito muito no less is more já escrevi aqui sobre isso no artigo em que vos contei sobre a minha experiência de viver numa motorhome e numa reflexão sobre: Precisamos de começar a viver. Não sou uma pessoa de rotinas (só as obrigatórias) mas no tempo livre gosto sempre de fazer coisas diferentes… nem sempre são “programas de índios” também gosto de programas mais ‘complexos’ (que envolvam horários rígidos, trânsito, dependam de outras pessoas, reservas, etc…) mas claramente os que me deixam mais relaxada são os “programas de índio” os que me colocam mais leve.
Temos muito a aprender com outros povos, com outras culturas, com outras mentes, com outras perspetivas. Resumindo, fazer um “programa de índio” para mim não tem NADA de menos interessante, não machuca o meu ego, não belisca a minha inteligência. Para mim “programa de índio” é um programa minimalista… e é para mim um luxo! Less is more!

Algumas fotos de “programas de índio” meus antes de terem esse ‘rótulo’: