Precisamos de começar a viver

O futuro é digital, é certo e inquestionável.
Mas o digital é efémero, o que hoje é inovação digital amanhã está obsoleto, e há coisas que não na nossa vida que não podem ser obsoletas.
O amor não é obsoleto.
As boas recordações não podem ser obsoletas.
A receita de domingo da avó não é obsoleta.
A receita do bolo para o lanche de tardes e inverno não pode ser obsoleta.
O cheiro não é obsoleto, mas foi esquecido, foi esquecido pela força do futuro.
Mas esse futuro chegou, e agora não temos guardado o cheiro, a receita, nem a história do avô de ‘no meu tempo faziamos…’, nem a história do pai quando foi à tropa, nem sequer a fotografia de família quando nasceu a primeira neta.
Precisamos de parar de estar com os olhos no futuro constantemente.
Precisamos de parar.
Precisamos de parar de viver a correr atrás, por vezes nem sabemos de quê, mas a necessidade é correr.
Precisamos de parar de correr e começar a viver.

Eu não tenho a receita de aletria que a minha mãe me faz como lanche nos sábados de inverno, tive e procurar na internet uma receita de aletria, fiz, mas não me soube igual.
Eu não tenho a receita da massa de rissóis da minha mãe, apesar de já ter feito com ela rissóis centenas de vezes (mas devia estar a correr).
O arroz no forno do assado de domingo não sabe igual, e o segredo não está na receita do assadosxpto.blogspot.pt nem na receita do http://www.cozinharapida.br nem nas outras centenas de receitas que são encontradas na internet.
O segredo só o sabe quem vive, quem está presente, quem aprecia o momento.
Só sente falta quem correu muito e não chegou a lado nenhum ou quem sente saudade porque não aproveitou quando devia.
Temos de começar a parar, temos de guardar, guardar tudo, receitas, fotografias, as palavras que marcaram, guardar tudo antes que seja tarde.

(Fotografia tirada no último pic-nic em família antes da despedida
há quanto tempo não fazes um pic-nic?)